Caminhar pela cidade é viajar no tempo. Cada rua tem a sua história
O empresário e historiador Fernando Miranda, autor do livro “Passo Fundo: o passo das ruas”, e o presidente do Instituto Histórico, Djiovan Carvalho, foram os convidados do programa Sem Segredo para uma conversa que transformou o cotidiano da cidade em uma verdadeira viagem pela memória e identidade local. A partir de um simples hábito de caminhar, revelou-se a complexa e fascinante história que cada placa de rua carrega.
O prazer da descoberta e a primeira planta
Tudo começou com a curiosidade de um historiador que, ao final de sua graduação, passou a observar com outros olhos os nomes das placas durante suas caminhadas. “Comecei a ver que alguns nomes falavam da história da cidade”, contou Fernando Miranda, que, ao pesquisar, encontrou no arquivo histórico da UPF a planta da povoação de Passo Fundo datada de 1853. Esse documento, com mais de 170 anos, foi o ponto de partida para uma jornada de descobertas sobre a evolução urbana do município .
A cidade de 1853 era irreconhecível. As poucas vias existentes, como a atual Avenida Brasil, nem sequer eram nomeadas no mapa. Miranda explica que a principal via da cidade, a Avenida Brasil, começou como um caminho espontâneo: a Estrada das Tropas, por onde passavam caravanas de mulas vindas das Missões. “E no desenvolvimento da Estrada das Tropas, surgiram algumas travessas”, disse, descrevendo o nascimento orgânico da malha urbana.
O tempo dos nomes espontâneos
Num período em que não havia uma Câmara de Vereadores para batizar as ruas, a nomenclatura nascia da sabedoria popular. “Era o próprio povo que dava, que nomeava”, explicou Miranda. Nomes como Rua da Ponte (ninguém precisava perguntar onde ficava), Rua das Flores (atual Teixeira Soares) ou Rua do Estreito (depois Capitão Araújo) eram dados com base em características práticas e identificáveis. “Uma coisa muito especial, porque com o processo de modernização, esses nomes foram se perdendo, porque a cidade está sempre em movimento e essas ruas vão ganhando outros nomes”, disse Miranda
Política, poder e apagamento da memória
Com a oficialização, a Câmara de Vereadores assumiu o controle sobre os nomes, e a escolha passou a refletir o jogo político. “Interessante que depois começou a haver um uso político das ruas”, afirmou Miranda. “O vencedor colocava nas ruas o nome que lhe interessava para construir os seus heróis e retirava, derrotava, apagava da memória aqueles que tinham sido derrotados.”
Esse processo, que ocorreu em todo o país, foi ilustrado com exemplos locais. A Avenida Brasil, por exemplo, só recebeu esse nome em 1913, num ato de sentimento patriótico, e sua unificação até a extensão que conhecemos hoje só aconteceu na década de 1960. Um movimento para que ela se chamasse Avenida Presidente Vargas, após o suicídio do presidente, foi aprovado por um comitê, mas acabou não avançando após uma reação contrária.
A força dos agrupamentos históricos
Djiovan Carvalho destacou que os nomes das ruas não são aleatórios, mas formam verdadeiros “agrupamentos” que contam uma narrativa histórica. Por exemplo, no quadrilátero da Praça Toqueto (antiga Praça da República), ruas como Fagundes dos Reis, Benjamin Constant, Silva Jardim e Júlio de Castilhos formam um verdadeiro “livro de história” que celebra a República. O mesmo ocorre em bairros como Petrópolis, onde as ruas levam nomes do período imperial (Princesa Isabel, Dom Pedro II), ou no bairro Lucas Araújo, cujas ruas fazem referência a figuras da Igreja .
A volta dos nomes locais
Após décadas de nomes de heróis nacionais, o historiador aponta uma mudança de paradigma a partir de 1970, que ele chama de “volta dos nomes locais”. Nesse período, passou-se a homenagear personalidades mais próximas da comunidade: o sapateiro querido do bairro, a estudante que faleceu precocemente, os benfeitores locais. “Vários nomes, dezenas de nomes que praticamente hoje são nomes assim, né, locais”, resumiu Miranda .
Um convite à descoberta e a importância do registro
Para quem ficou curioso sobre a origem do nome de sua própria rua, o historiador fez um convite: conhecer o projeto “Projeto Passo Fundo” (projetopassofundo.com.br), uma enciclopédia online com a história de todas as ruas da cidade. “É um ponto de recorrência, onde a pessoa pode consultar e, enfim, tirar dúvidas”, afirmou Miranda, ressaltando a importância de se gostar da história local.
“É onde a gente vive e que é onde a gente pertence. E é onde a gente se encontra. E a rua é um local de encontro entre diferentes”, analisou o historiador, concluindo que o conhecimento da história local não apenas sacia a curiosidade, mas também leva as pessoas a gostarem e respeitarem mais a cidade onde vivem.
