Canetas Emagrecedoras: especialistas alertam para uso consciente, riscos e a necessidade de mudar hábitos
Em um cenário onde a busca pelo corpo magro e a solução para a obesidade se tornam cada vez mais urgentes, as chamadas “canetas emagrecedoras” ganharam destaque. Para entender os benefícios, riscos e a real eficácia desses medicamentos, o programa Sem Segredo reuniu o endocrinologista Pérsio Stobbe, a nutróloga Débora Boscato e a psicóloga Graziela Ribeiro. O consenso entre os especialistas é claro: não existem milagres e o tratamento deve ser acompanhado, multiprofissional e, acima de tudo, para a vida toda.
Evolução da Medicação e Eficácia
O endocrinologista Pérsio Stobbe iniciou explicando a evolução das moléculas, que chegaram ao mercado brasileiro em 2006 para o tratamento do diabetes. Com o tempo, observou-se o potencial para a perda de peso, culminando em medicamentos mais potentes, como a Semaglutida (Ozempic) e a Tezepatida (Mounjaro). “Nós chegamos perto da perda de peso da cirurgia bariátrica”, afirmou Stobbe, destacando que o cenário do tratamento da obesidade mudou drasticamente nos últimos anos. Atualmente, cerca de 25% da população brasileira vive com obesidade.
“Tratamento é para a Vida Toda”
Um dos pontos mais enfatizados foi a cronicidade da obesidade. A nutróloga Débora Boscato foi enfática: “Nenhum tratamento para a obesidade vai ser só remédio. Quando o paciente pergunta quanto tempo vou ter que me tratar, eu digo: a vida toda”. Ela explica que a obesidade é uma doença crônica e, sem mudanças de hábito, o paciente tende a recuperar o peso perdido, independentemente do método usado, incluindo a cirurgia bariátrica, que tem uma taxa de reganho de aproximadamente 20% entre 2 e 5 anos. Sobre o uso contínuo das canetas, a médica afirma que ainda há estudos, mas que muitos pacientes necessitarão de intervenções durante toda a vida, seja com aplicações semanais ou, no futuro, com medicamentos orais, como o novo Fondayo, já liberado nos EUA.
O Lado Psicológico e Social: A “Magreza Medicamentosa”
A psicóloga Graziela Ribeiro trouxe à tona as motivações sociais por trás do uso indiscriminado dos medicamentos. “Isso é muito reflexo da nossa sociedade da rapidez. A magreza é associada à saúde, ao sucesso e à disciplina, o que não é necessariamente uma verdade”, explicou. Ela aponta que a maioria dos usuários são mulheres, pressionadas por um ideal de beleza, e que a busca pelo emagrecimento rápido, na verdade, esconde a necessidade de reconhecimento, admiração e afeto.
Efeitos Colaterais e o Risco do Mercado Paralelo
Sobre os efeitos colaterais, Débora Boscato listou os mais comuns: náuseas, azia, constipação e diarreia, decorrentes do retardamento do esvaziamento gástrico. Alertou também para riscos como cálculo na vesícula e a importância do acompanhamento para evitar a perda excessiva de massa muscular – o chamado “rosto de Ozempic”.
No entanto, o maior alerta veio do endocrinologista Pérsio Stobbe sobre o uso de medicamentos falsificados ou manipulados, muitas vezes vindos do Paraguai. “Você não sabe o que está injetando no seu corpo. Pode haver contaminação, dose errada, e você perde a segurança de notificar efeitos adversos à Anvisa”, afirmou. Ele classificou a compra desses produtos como uma “economia burra”, que pode levar a complicações graves como pancreatite.
Finalidade e Acompanhamento Profissional
Os especialistas foram categóricos: o uso das canetas não é recomendado para perda de peso rápida e passageira, como para um evento social. “Nunca vai ser um emagrecimento saudável”, disse a nutróloga, reforçando que o foco deve ser a perda de gordura com manutenção da massa magra, e não apenas o número na balança. A psicóloga Graziela complementou, destacando o papel da psicologia para desvendar a relação do paciente com a comida e com a própria imagem. “Muitas vezes, a pessoa está extremamente adoecida, mas como está magra, recebe elogios e aprovação social. O psicólogo ajuda a entender essa motivação e tratar a causa, não a consequência.”
