Se minha luz te incomoda é porque ela te ilumina
A vela pequenina, acesa no quarto simples, não escolhe os olhos que vai tocar. Ela apenas arde. Sobre a mesa, mostra o pão, a carta esquecida, o remédio, a fotografia antiga, o rosto cansado de quem voltou da luta diária. Sua luz não grita, não disputa a janela com o sol, não pergunta quem merece claridade. Cumpre a tarefa de clarear o que lhe foi confiado.
Assim também acontece com quem tenta servir ao bem. Uma palavra de paciência, uma renúncia ao revide, um gesto limpo no meio da maledicência, uma alegria serena diante da inveja, tudo isso acende clarões que muita gente não sabe receber. O incomodado, muitas vezes, não se aborrece com a luz em si, mas com aquilo que a luz revela dentro dele.
O exemplo alheio costuma tocar feridas escondidas. A disciplina de alguém lembra promessas adiadas. A bondade de outro denuncia nossa dureza. A calma do companheiro aponta a tempestade que ainda deixamos solta no coração. Por isso, antes de censurar a claridade que nos visita, convém perguntar em silêncio: que parte minha se sentiu descoberta?
Também aquele que carrega a vela precisa vigiar. Toda luz recebida do Alto deve servir sem vaidade. Claridade misturada ao orgulho queima em vez de consolar. Virtude exibida perde ternura. Serviço transformado em palco deixa de curar. O Cristo não entregou a ninguém a lâmpada do Evangelho para ferir olhos cansados, mas para guiar passos, aquecer esperanças e socorrer caminhantes em sombra.
Se tua pequena luz incomoda, não apagues a chama por medo da crítica. Apura-lhe o azeite. Faz-te simples. Trabalha sem exigir aplauso. Ora por quem te interpreta mal. Guarda cuidado para que tua presença não humilhe, mas alivie. A luz verdadeira tem pudor: entra devagar, respeita a dor, espera o momento de clarear sem violência.
Muitos que hoje rejeitam tua claridade poderão, mais tarde, procurar nela um ponto de retorno. O coração humano resiste ao remédio enquanto ama a própria enfermidade. Depois, cansado de sofrer, recorda a lâmpada que julgou excessiva e segue em sua direção.
Permanece no bem. A vela fiel vence a noite por perseverança.
Por @diarioespirita1
