Skip to content

Geral

É essencial ler rótulos e cuidar a validade dos alimentos

Públicado em Por RD Uirapuru / Zulmara Colussi

Entender o que está por trás das embalagens, tabelas e selos é um desafio para muitos consumidores, mas também é o principal caminho para levar para casa alimentos de qualidade e fazer escolhas mais saudáveis. Para esclarecer as principais dúvidas sobre o tema, o programa Sem Segredo conversou com a coordenadora do Curso de Nutrição da UPF, Valéria Hartman, e com a médica veterinária, professora da Atitus e especialista em inspeção e qualidade de produtos de origem animal, Ludmila Salazar.

Um dos primeiros pontos abordados foi a recente mudança na legislação sobre rotulagem. A tabela nutricional, ferramenta essencial para conhecer a qualidade dos alimentos, ganhou novas exigências. “Quando a gente fala da tabela nutricional, ela mudou bastante. Agora, temos informações melhores sobre a porção e sobre o conteúdo em 100 gramas do alimento, algo que não tínhamos antes”, explicou Valéria. Segundo ela, essa informação adicional é crucial, já que muitas pessoas consomem mais do que a porção indicada na embalagem.

Os nutrientes ganharam um destaque especial. Açúcar, sódio e gordura saturada, quando estão acima dos limites definidos, precisam ser informados com clareza através de uma “lupa” na parte frontal da embalagem. “Quando o alimento tem 15 gramas de açúcar em 100 gramas, ele é considerado alto em açúcar adicionado. É aí que entra a lupa, destacando visualmente que aquele produto tem alto teor daquele componente”, detalhou a professora, mostrando a embalagem de um chocolate que estampava as lupas de “alto em açúcar” e “alto em gordura saturada”.

A difícil arte de interpretar

Apesar dos avanços, as especialistas reconhecem que a leitura ainda não é simples para todos. “Depende. Hoje temos um público que se preocupa muito com o que consome, um tipo de público que lê. Mas não são todos”, avaliou Ludmila, que defende um conhecimento mínimo para uma escolha consciente. “Não precisa saber tudo de cor, mas o básico: ‘Isso tem muito sódio, e eu tenho um problema renal’, ou ‘tem muito açúcar, eu sou diabético’. As pessoas precisam ter esse senso crítico”, completou. Valéria também deu uma dica de ouro: a ordem dos ingredientes. “O primeiro ingrediente que aparece é o que está em maior quantidade, e o último, em menor. Se o açúcar ou algum xarope aparece em primeiro lugar, isso diz muito sobre o alimento”, ensinou.

Iogurte, composto lácteo e os “fakes”: qual a diferença?

Em um mercado com oferta gigantesca de produtos, as confusões são comuns. Um exemplo clássico está na geladeira de laticínios. Ludmila explicou a diferença entre bebida láctea e iogurte: “O iogurte tem que ter, por lei, mais de 51% de leite. Já a bebida láctea leva uma adição maior de soro de leite, por isso tem uma consistência mais líquida e costuma ser mais barata. Ambos têm nutrientes e fermentam, mas são diferentes.”

A conversa se aprofundou nos chamados “fakes”, como os compostos lácteos e misturas. Um alerta importante foi dado por Ludmila: “Por lei, a embalagem de um composto lácteo deve trazer em caixa alta e negrito a frase ‘O composto lácteo não é leite em pó’. O mesmo vale para a mistura de leite condensado. Se você vir a palavra ‘mistura’ ou ‘composto’, saiba que não é o produto puro. São produtos que baratearam o custo, mas têm composição nutricional diferente”, destacou.

A segurança por trás dos selos e validades

Para produtos de origem animal, a atenção deve ser redobrada com os selos de inspeção. “Quando você compra derivados de carne, leite, ovo, mel e pescado, precisa ter o selo de inspeção municipal, estadual ou federal. Aquilo comprova que não é um alimento clandestino, que passou por controle de segurança e higiene”, alertou a veterinária. Ela também fez um apelo para que os consumidores não ignorem a validade: “A empresa é responsável por dar o prazo de validade com base em testes microbiológicos. Depois dessa data, ela não garante mais nada.”

Um exemplo prático é o dos enlatados. Valéria lembrou que, após abertos, produtos como atum e extrato de tomate têm pouca durabilidade e devem ser consumidos rapidamente. “As pessoas abrem, deixam na geladeira e uma semana depois está contaminado. O ideal, se não for usar tudo, é congelar”, recomendou a nutricionista.

Derrubando mitos: frango não tem hormônio

Um dos momentos mais enfáticos da conversa foi sobre a crença de que o frango de granja conteria hormônios. Ludmila foi categórica: “É mito! É proibido por lei no Brasil adicionar hormônio na carne de frango. Além do mais, o hormônio é caro e o sistema digestivo da ave não o absorveria bem”. A especialista explicou que o rápido crescimento da ave em cerca de 42 dias é fruto de genética, nutrição balanceada e manejo adequado.

Outro mito derrubado foi o do cheiro forte da carne embalada a vácuo. “Ao abrir a embalagem, não coloque na panela na hora. Deixe-a ‘respirar’ por 30 minutos. O odor some, a coloração volta ao normal e a carne estará perfeita para o preparo”, orientou Ludmila. As duas profissionais também foram unânimes em um alerta: não se deve lavar carnes. “O risco de contaminação cruzada é alto. Ao lavar um frango, respingos podem contaminar alimentos que serão consumidos crus, como uma salada. A cocção é que vai garantir a segurança”, afirmou Valéria.

Equilíbrio e comida de verdade

Diante de um mundo de ultraprocessados – produtos com muitos aditivos e conservantes para aumentar o prazo de validade –, as especialistas reforçaram a importância do equilíbrio. “O excesso faz mal. Você não pode comer salame, salsicha ou um ultraprocessado todo dia, mas comê-los de vez em quando não é o problema”, ponderou Ludmila. A nutricionista Valéria Hartman finalizou com o apelo pela “comida de verdade”: “Sempre que possível, priorizem o arroz, o feijão, a salada, as carnes e as frutas. Isso não é implicância, é saúde. Não vão atrás de modismos que cortam o pão ou o arroz sem necessidade. O segredo está na variedade e na moderação”.