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Clima

Eventos extremos chegaram antes do previsto e devem se tornar mais frequentes, alerta geólogo 

Públicado em Por RD Uirapuru / Suélen Kommers

As chuvas que atingiram Passo Fundo nesta semana surpreenderam até as previsões meteorológicas. Em apenas 24 horas, o município registrou cerca de 218 milímetros de precipitação, provocando alagamentos, transbordamentos e diversos transtornos. Diante do cenário, surgiu a dúvida se o solo teria mudado de comportamento após a enchente histórica de 2024 ou se as obras realizadas desde então contribuíram para reduzir os impactos.

Em entrevista à Rádio Uirapuru, o geólogo Luiz Paulo Fragomeni explicou que o comportamento do solo não mudou em razão das enchentes de 2024. Segundo ele, o que ocorre é que o terreno estava encharcado antes do novo episódio de chuva intensa.

“O solo, quando está encharcado, não consegue mais absorver água. A partir desse momento, praticamente toda a chuva passa a escoar pela superfície”, explicou.

Fragomeni destacou que essa é uma condição natural e que pode ocorrer sempre que o volume de chuva supera a capacidade de infiltração do solo, independentemente dos eventos registrados em anos anteriores.

Obras e estrutura reduziram impactos

Na avaliação do geólogo, as intervenções realizadas após a tragédia climática de 2024, como desassoreamento de cursos d’água e investimentos em prevenção, contribuíram para diminuir os efeitos das chuvas.

Ele afirma que a principal mudança ocorreu na preparação do Estado para enfrentar eventos extremos.

“O Rio Grande do Sul aprendeu com a tragédia. Hoje existe uma Defesa Civil muito mais estruturada, com recursos, equipamentos, planos de contingência e equipes preparadas para atuar.”

Além disso, Fragomeni destaca que houve ampliação da rede de radares meteorológicos e aprimoramento dos sistemas de alerta, que passaram a emitir avisos mais precisos e localizados, permitindo respostas mais rápidas das equipes e da população.

Eventos extremos devem ser mais frequentes

O geólogo também chamou atenção para as mudanças climáticas. Segundo ele, a ciência já indicava que episódios de chuva intensa e estiagens severas se tornariam mais comuns, mas os fenômenos estão ocorrendo antes do previsto.

“As projeções indicavam esse cenário para as próximas décadas, mas ele já está acontecendo agora. Os eventos tendem a ser mais intensos e mais frequentes.”

Para Fragomeni, a principal medida é investir em prevenção e preparação, uma vez que esses fenômenos deverão fazer parte da realidade nos próximos anos.

Chuva em Passo Fundo influencia rios de outras regiões

Outro ponto destacado pelo geólogo é a posição geográfica de Passo Fundo. O município está localizado em uma região de cabeceiras de importantes bacias hidrográficas do Estado.

Segundo ele, por estar em um divisor de águas, a cidade dificilmente enfrenta grandes enchentes provocadas pelos próprios rios. No entanto, a água que cai na região segue seu curso e contribui para o aumento dos níveis dos rios em municípios situados mais abaixo.

“A chuva que cai aqui é a mesma água que vai provocar elevação dos rios no Vale do Taquari, na região do Jacuí e também em Porto Alegre.”

Fragomeni explica que, ao deixar a região serrana e alcançar áreas de menor declividade, como a Depressão Central, os rios perdem velocidade, favorecendo o acúmulo de água e aumentando o risco de inundações.

Próxima semana

Sobre a possibilidade de novos episódios de chuva volumosa na próxima semana, com acumulados próximos de 100 milímetros, o geólogo avalia que, caso a previsão se confirme, a tendência é que haja tempo suficiente para a drenagem parcial da água acumulada no solo.

Segundo ele, a janela de dias sem grandes volumes de precipitação deverá permitir uma recuperação das condições hidrológicas, reduzindo o risco de agravamento do cenário atual, embora o monitoramento permaneça essencial diante das condições climáticas previstas.