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Trânsito

Passo Fundo registra quatro acidentes por dia; especialistas apontam falta de empatia e uso do celular como principais causas

| RD Uirapuru / Zulmara Colussi

Passo Fundo registrou entre janeiro e 20 de maio deste ano, 729 acidentes com danos materiais, uma média de 4 acidentes por dia. O número, embora ainda alto, representa uma queda em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 830 ocorrências. A informação foi dada pelo secretário de Segurança e de Transporte Tadeu Trindade, durante o Programa Sem Segredo. O município tem hoje 153 mil veículos licenciados, uma média de 1,5 veículos por habitante adulto, conforme o Detran, além de receber diariamente mais de 20 mil outros veículos vindos de outras cidades. Trindade disse que

Falta de empatia e comportamento social

O psiquiatra Érico Hecktheuer trouxe uma análise comportamental: para ele, o trânsito é um reflexo da sociedade. “Muitas pessoas ainda se sentem superiores porque o carro é maior, mais potente. Isso gera uma distorção ética de querer tirar vantagem”, disse. Ele criticou a naturalização de desvios como avançar o sinal vermelho, estacionar em fila dupla e desrespeitar faixas de pedestre. A coordenadora da Escola Pública de Trânsito, Raquel Rúbio, defendeu que a educação para o trânsito vai além da formação de bons motoristas. “Queremos fazer pessoas melhores. A prioridade é que todos entendam como estar no trânsito, respeitando o espaço do outro”, explicou. Ela destacou que a empatia é essencial: “Só faça para o outro o que gostaria que fizessem para você”.

Risco de dirigir alcoolizado

Um dos pontos mais enfatizados foi o uso do celular durante a condução. O secretário Tadeu Trindade classificou o comportamento como “absurdo” e comum até entre motoboys. “Abre o sinal e as pessoas não avançam porque estão no celular. Isso virou regra geral”, lamentou. Raquel Rúbio acrescentou que já flagrou motoristas em videochamada ao volante. “Parar no semáforo não significa que você está estacionado. Manusear o celular é infração”, alertou. Estudos citados no programa mostram que o risco de dirigir falando ao celular é maior do que dirigir alcoolizado.

Fiscalização e mudança cultural

O secretário informou que o município já utiliza videomonitoramento para auxiliar na fiscalização e que opera ações como a “Operação Área Azul”, que verifica o uso correto de vagas para idosos e rotatividade. Ele também revelou um dado preocupante: em um único semáforo da cidade, foram flagradas 115 travessias irregulares no vermelho, sendo 92 delas com o sinal já vermelho há vários segundos. Hecktheuer sugeriu uma mudança de abordagem cultural: “Em Gramado, respeitar a faixa de pedestre é ‘chique’. Precisamos de campanhas que mostrem que ser respeitoso no trânsito é valorizado”. Ele também pediu cautela nas relações: “Se você fez uma barbeiragem, peça desculpas. Se o outro está alterado, não morda a isca. Não beba o veneno do outro”.

Escola de Trânsito e direção defensiva

Raquel Rúbio destacou o trabalho da Escola Pública de Trânsito de Passo Fundo, que atende desde a educação infantil até a melhor idade, promovendo passeios a pé e noções de cidadania. “A criança precisa entender que o comportamento seguro vale na rua, em casa, na escola”, afirmou. Já o secretário Tadeu Trindade fez um apelo final: “A sinalização é a mesma em todo o Brasil. Respeitar as regras não é sinal de fraqueza, é reciprocidade. Enxergar o outro salva vidas”. O programa fez questão de destacar a mudança de nomenclatura defendida por especialistas: o termo “acidente” tem sido substituído por “sinistro” — já que mais de 90% das ocorrências são evitáveis e resultam de imprudência, não do acaso.