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Internacional

Rick Rescorla: o militar que previu o 11 de Setembro e salvou milhares de vidas

Públicado em Por RD Uirapuru / Gabriel Nunes
Reprodução/Chao Soi Cheong/AP/Arquivo

Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 marcaram a história dos Estados Unidos e deixaram aproximadamente 3 mil mortos, além de centenas de feridos. Em Nova York, grande parte das vítimas estava no World Trade Center, complexo atingido por dois aviões sequestrados.

Em meio à tragédia, porém, algumas pessoas tiveram um papel decisivo na retirada de trabalhadores dos prédios. Uma delas foi Rick Rescorla, coronel e especialista em segurança que trabalhava no World Trade Center.

Anos antes dos ataques, Rescorla já considerava a possibilidade de que terroristas utilizassem uma aeronave para atingir as torres. Por causa dessa preocupação, criou e colocou em prática um rigoroso plano de evacuação que, no dia 11 de setembro, ajudou a retirar milhares de pessoas da Torre Sul.

Quem foi Rick Rescorla?

Nascido no Reino Unido, Richard Cyril Rescorla iniciou sua trajetória profissional no Exército britânico. Posteriormente, mudou-se para os Estados Unidos e continuou sua carreira militar.

Durante a década de 1960, participou da Guerra do Vietnã, onde chegou a comandar tropas americanas. Sua postura firme e seu estilo de liderança fizeram com que recebesse o apelido de “Hard Core”, expressão que pode ser traduzida como “linha-dura”.

Depois de deixar o serviço militar, Rescorla ingressou na universidade para estudar Direito. Na década de 1980, entretanto, interrompeu os estudos para trabalhar na área de segurança da Dean Witter, empresa do setor financeiro que mantinha escritórios no World Trade Center.

Mais tarde, a Dean Witter se fundiria com a Morgan Stanley, que continuaria ocupando diversos andares do complexo.

Por que Rescorla acreditava que o World Trade Center seria atacado?

A preocupação de Rescorla com a segurança do World Trade Center não surgiu de forma repentina. Um dos acontecimentos que reforçaram sua percepção ocorreu em 1988, quando uma bomba explodiu a bordo do voo 103 da Pan Am, que tinha como destino Nova York.

Para o militar, o ataque demonstrava que aeronaves poderiam ser utilizadas como instrumentos de terrorismo.

Sua preocupação ganhou ainda mais força depois do primeiro atentado ao World Trade Center, em 1993. Na ocasião, um caminhão carregado com explosivos foi detonado no subsolo do complexo, deixando mais de mil pessoas feridas.

O episódio fez Rescorla considerar que as medidas de segurança adotadas no local eram insuficientes. Para ele, o World Trade Center continuava sendo um alvo extremamente vulnerável.

A previsão de um ataque com aviões

Durante a década de 1990, Rescorla teria alertado executivos da Morgan Stanley sobre os riscos de continuar instalada no World Trade Center.

Entre os cenários considerados pelo militar estava justamente a possibilidade de um avião ser utilizado em um ataque contra uma das torres.

A hipótese parecia improvável para muitas pessoas na época. Rescorla, no entanto, entendia que o World Trade Center tinha enorme importância simbólica e econômica para os Estados Unidos, principalmente por sua proximidade com Wall Street.

Ele chegou a imaginar a possibilidade de uma aeronave vinda do Oriente Médio ou da Europa ser utilizada em um atentado contra o complexo. O avião poderia, segundo esse cenário, transportar explosivos ou até substâncias químicas ou biológicas.

A Morgan Stanley decidiu permanecer no World Trade Center. O contrato de locação da Torre Sul ainda tinha vários anos pela frente, e uma mudança de sede representaria um custo elevado para a empresa.

Rescorla então concentrou seus esforços em outro objetivo: preparar os funcionários para uma possível emergência.

O plano de evacuação criado por Rick Rescorla

O coronel desenvolveu um sistema de evacuação que tinha como principal objetivo evitar o caos durante uma emergência.

Pelo menos duas vezes por ano, os funcionários da Morgan Stanley participavam de exercícios de evacuação conduzidos por Rescorla.

O treinamento incluía procedimentos específicos para impedir que as escadas ficassem congestionadas. Os trabalhadores eram orientados a deixar seus postos de maneira organizada, em pequenos grupos, seguindo um fluxo previamente estabelecido.

Rescorla também utilizava o sistema de comunicação interno para transmitir as instruções aos funcionários.

A insistência do militar nos treinamentos nem sempre era bem recebida. Alguns trabalhadores consideravam os exercícios exagerados e chegaram a fazer piadas sobre sua preocupação constante com a segurança.

Mas, em 11 de setembro de 2001, aquele treinamento deixaria de ser apenas uma precaução.

O que Rick Rescorla fez no dia 11 de setembro?

Na manhã de 11 de setembro de 2001, a Morgan Stanley ocupava 22 andares da Torre Sul do World Trade Center.

Pouco antes das 9h, Rescorla estava em seu escritório quando ouviu a notícia de que um avião havia atingido a Torre Norte, às 8h46.

A administração do World Trade Center inicialmente orientou os ocupantes da Torre Sul a permanecerem em seus locais, já que o prédio não havia sido atingido.

Rescorla tomou uma decisão diferente.

Ele acreditava que o ataque poderia ser apenas o começo e ordenou que os funcionários da Morgan Stanley começassem a evacuação.

A decisão foi fundamental.

Os trabalhadores começaram a deixar a Torre Sul seguindo os procedimentos praticados nos treinamentos anteriores. Enquanto a evacuação acontecia, Rescorla continuou coordenando a saída.

O segundo avião atingiu a Torre Sul

Menos de 20 minutos depois do primeiro impacto, às 9h03, o voo 175 da United Airlines atingiu a Torre Sul.

A partir daquele momento, não havia mais dúvida de que os Estados Unidos estavam diante de uma sequência coordenada de ataques terroristas.

Mesmo assim, Rescorla permaneceu concentrado na evacuação.

Ele continuou percorrendo o prédio e orientando os trabalhadores a descer pelas escadas. Seu objetivo era garantir que o maior número possível de pessoas conseguisse sair antes que fosse tarde demais.

De acordo com informações do Exército dos Estados Unidos, 2.687 pessoas foram salvas graças à atuação de Rescorla e aos procedimentos de evacuação que ele havia implantado.

O último ato de Rick Rescorla

Quando grande parte dos funcionários já havia conseguido deixar o prédio, Rescorla decidiu permanecer na Torre Sul.

Sua preocupação era verificar se alguém ainda estava preso ou precisava de ajuda.

Ele foi visto pela última vez subindo pelas escadas do World Trade Center, enquanto o edifício era evacuado.

Segundo registros do Memorial do 11 de Setembro, Rescorla estava entre as pessoas que não conseguiram sair da torre antes de seu colapso.

Antes de desaparecer, ele teria dito a um colega que permaneceria no prédio até ter certeza de que todos os demais haviam conseguido escapar.

Rescorla também conseguiu falar por telefone com sua esposa pouco antes do desabamento.

O coronel foi oficialmente declarado morto algumas semanas depois dos atentados. Seus restos mortais nunca foram encontrados.

Por que Rick Rescorla é considerado um herói do 11 de Setembro?

A história de Rick Rescorla ganhou destaque porque sua atuação combinou preparação, liderança e coragem.

O militar não apenas imaginou que o World Trade Center poderia ser alvo de um ataque. Ele transformou essa preocupação em medidas concretas de segurança, treinando repetidamente os funcionários para que soubessem como agir diante de uma emergência.

Quando os atentados aconteceram, Rescorla não esperou por novas instruções. Ele colocou seu plano em prática e continuou trabalhando mesmo depois de a Torre Sul ser atingida.

Por isso, sua trajetória ficou marcada como um dos exemplos mais conhecidos de heroísmo durante o 11 de Setembro.

Sua história também mostra como treinamentos considerados excessivos ou desnecessários podem fazer uma diferença decisiva quando uma situação de emergência realmente acontece.

A memória de Rick Rescorla

Mais de duas décadas depois dos ataques, Rick Rescorla continua sendo lembrado como um dos grandes heróis do 11 de Setembro.

Sua previsão sobre a vulnerabilidade do World Trade Center, os exercícios de evacuação e sua decisão de permanecer no prédio para procurar outras pessoas transformaram seu nome em um símbolo de liderança e sacrifício.