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Tradicionalismo

Tradicionalismo gaúcho movimenta mais de R$ 4,5 bilhões ao ano

Públicado em Por RD Uirapuru / Zulmara Colussi

Administrar uma entidade tradicionalista gaúcha nos dias de hoje exige muito mais do que paixão pela cultura. Exige visão empresarial, capacidade de articulação política e, acima de tudo, união. É o que defenderam o presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), Alessandro Gradaschi, e o patrão do CTG Lalau Miranda, Marcelo Dapper, durante o Programa Sem Segredo.

A primeira entidade tradicionalista de Passo Fundo e uma das maiores da região, o CTG Lalau Miranda enfrenta, como tantos outros, a dura realidade da queda no número de associados. Marcelo Dapper lembra que, na década de 80, quando o galpão foi construído, a entidade contava com cerca de 5 mil a 5,5 mil associados. “Todos ajudavam, um doava mil sacas de cimento, outro doava mil tijolos. Na Semana Farroupilha, um doava um boi, outro doava um porco. Hoje infelizmente não contamos mais com isso”, relata.

Diante desse cenário, a saída encontrada foi profissionalizar a gestão. “Hoje uma entidade tradicionalista precisa ser vista de dentro para fora como uma empresa. A administração precisa ser feita nesse formato”, afirma Dapper. Entre as estratégias adotadas estão a locação de espaços — como o Parque da Roselândia, onde rancheiros constroem seus ranchos —, a realização de jantares para empresas e a promoção de dois a três bailes oficiais por ano.

O papel do MTG

À frente do MTG, Alessandro Gradaschi assumiu com uma única proposta: auxiliar as entidades. “Fui eleito com 98% de aprovação dos patrões. Meu primeiro ato foi buscar ajuda na prefeitura, na Assembleia e no governo do estado. A partir daquele momento, o movimento começou a ser visto de forma diferente”, conta. Essa aproximação resultou em um marco histórico: nos últimos dois anos, 852 entidades receberam recursos por meio de editais públicos, totalizando R$ 25 milhões. Desse montante, R$ 16 milhões vieram do projeto Avançar Tchê, que destinou R$ 40 mil para entidades plenas e R$ 20 mil para entidades parciais. O CTG Lalau Miranda, por ser uma entidade plena — com invernadas artísticas, campeiras e departamento de esportes —, recebeu R$ 40 mil, investidos na reforma da antiga cancha de bocha, transformada em sala de ensaio e palco B da Reculuta Farroupilha. Gradaschi destaca que houve resistência inicial dentro do movimento à busca por recursos públicos. “Era proibido falar em política. Mas nós não fazemos política partidária; buscamos através dos nossos governantes auxílio. O Estado é o Estado, o governo é outra coisa”, pondera.

Impacto econômico

Os números apresentados durante a entrevista revelam a força econômica do tradicionalismo. Segundo estudo da FEVALE de Novo Hamburgo, o movimento movimenta R$ 4,5 bilhões por ano no Rio Grande do Sul . Só no mês Farroupilha são R$ 652 milhões , sendo R$ 140 milhões em carne para churrasco, R$ 40 milhões em erva mate, além de todas as atividades envolvendo cavalos que responde por R$ 2 bilhões. “Muitas vezes acham que o tradicionalismo recebe muito. Recebe pouco perante outras manifestações culturais.

Atividades o ano inteiro

Engana-se quem pensa que o CTG vive apenas em setembro. Após a Semana Farroupilha, o Lalau Miranda retoma as atividades com preparação para os estaduais (Feste Chiru e Enarte), o baile da Prenda Jovem em 28 de novembro — que neste ano deve ser um dos maiores dos últimos anos, com mais de 18 prendas confirmadas — e a finalíssima do C-Arts em dezembro. Em janeiro, as atividades recomeçam. A entidade conta hoje com 28 invernadas artísticas, atendendo desde crianças de 4 anos (Dente de Leite) até idosos acima de 75 anos (grupo Vaqueanos). “A entidade tradicionalista é o único local que você pode frequentar com toda a tua família. Não existe restrição”, destaca Dapper. Na parte campeira, o CTG possui duas invernadas e um grupo de cavalgadas, além de ser pioneiro no estado com uma arena exclusiva para vaca parada — onde crianças treinam laço e muitos campeões iniciam.

Combate à violência contra a mulher

Outro tema central da gestão de Gradaschi é o combate à violência contra a mulher. Em 2025, o MTG adotou o tema anual proposto pelas prendas estaduais. “Muitas pessoas ficaram incomodadas na plateia, tanto mulheres quanto homens. Homens por não imaginar que aquilo que estava sendo falado era violência. Mulheres por saber que era”, relembra. Para 2026, o tema segue como pauta em todas as entidades do estado.

O futuro do movimento

Questionado sobre como atrair jovens, Gradaschi é enfático: o caminho é a escola. “Eu estou aqui como presidente do MTG porque, na escola Fagundes dos Reis, em Passo Fundo, fui apresentado à dança do Pezinho. Foi ali que comecei a gostar.” Atualmente, 132 entidades desenvolvem oficinas nas escolas por meio do projeto “CTG vai à escola”. Para Marcelo Dapper, o segredo é a união e o trabalho coletivo. “Sozinho a gente não faz nada. Precisamos de um corpo de patronagem ativo, que participe de todas as decisões e tarefas. O tradicionalismo é feito por muitas mãos.”