Tragédia no Nepal e no Tibete: geólogo aponta aquecimento global e ocupação de áreas de risco como fatores de alerta
O número de mortos na avalanche de lama que atingiu a região da fronteira entre o Nepal e o Tibete, na China, segue subindo e já passou de 360 pessoas nesta quinta-feira (27). Segundo autoridades dos dois países, quase 1.500 pessoas estão desaparecidas. O desastre aconteceu na quarta-feira (26), depois que uma avalanche de gelo e rochas atingiu um rio e provocou uma enorme enxurrada de água, lama e destroços.
Em entrevista à Rádio Uirapuru, o geólogo Luiz Paulo Fragomeni explicou que o desastre envolveu uma combinação de fatores naturais. Segundo ele, a região possui vales muito profundos e íngremes, além de geleiras e lagos formados naturalmente pela água do degelo. A avaliação é de que um desses lagos tenha se rompido de forma repentina. A grande quantidade de água teria descido pelas encostas e se transformado em uma torrente de detritos, carregando rochas, solo, lama e gelo.
Conforme Fragomeni, a forte inclinação das montanhas contribuiu para que o material ganhasse velocidade rapidamente. A avalanche pode ter atingido aproximadamente 100 quilômetros por hora ao avançar pelos vales. Inicialmente, chegou a ser levantada a possibilidade de um terremoto ter provocado o rompimento. No entanto, segundo o geólogo, essa hipótese não se confirmou. O movimento sísmico identificado estaria relacionado ao próprio deslocamento da massa de gelo e detritos.
Fragomeni também chamou atenção para a relação entre eventos desse tipo e as mudanças climáticas. O aquecimento global tem provocado o recuo das geleiras e aumentado a instabilidade de algumas áreas montanhosas. O geólogo explicou que fenômenos naturais sempre ocorreram, mas os períodos entre grandes eventos podem ser muito longos. Com a expansão da ocupação humana em áreas de risco, um fenômeno natural pode atingir moradores e estruturas, transformando-se em um desastre. Ele citou como exemplo as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.
Segundo Fragomeni, muitas cidades foram construídas em áreas naturalmente ocupadas pelos rios e, diante de eventos extremos, acabam novamente expostas. Para o especialista, a principal forma de reduzir os impactos é evitar a ocupação de áreas que apresentam risco geológico. Fragomeni também diferenciou o desastre no Himalaia dos rompimentos de barragens registrados em Mariana e Brumadinho. Segundo ele, os casos brasileiros envolveram falhas humanas, enquanto o fenômeno no Himalaia está relacionado a processos naturais.
O geólogo ressaltou ainda que eventos semelhantes podem voltar a ocorrer na região. Por isso, o planejamento da ocupação territorial e o monitoramento das áreas de risco são fundamentais para reduzir o número de vítimas em futuras ocorrências.
