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Saúde

Vacina contra HPV passa a ser indicada para crianças a partir dos 2 anos vítimas de violência sexual

Públicado em Por RD Uirapuru / Gabriel Nunes
Reprodução

O Ministério da Saúde ampliou a recomendação de vacinação contra o HPV para crianças a partir dos 2 anos de idade que tenham sido vítimas de violência sexual. A medida representa uma mudança importante na estratégia de prevenção de infecções pelo papilomavírus humano (HPV), já que, anteriormente, a indicação específica para esse público começava aos 9 anos.

A orientação prevê que meninos e meninas vítimas de violência sexual possam receber uma dose da vacina quadrivalente contra o HPV, após avaliação e indicação do profissional ou serviço de saúde responsável pelo atendimento.

A nova recomendação contempla uma faixa etária especialmente vulnerável. Dados apresentados pelo Ministério da Saúde, com base no Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostram que as notificações de violência sexual envolvendo crianças de 0 a 4 anos aumentaram significativamente na última década.

Em 2014, foram registrados 1.671 casos nessa faixa etária. Em 2024, o número chegou a 7.845 notificações, um crescimento superior a quatro vezes.

Quem pode receber a vacina contra HPV após violência sexual?

A nova orientação permite a vacinação de crianças de 2 a 8 anos vítimas de violência sexual, desde que a indicação seja feita pela equipe ou pelo profissional responsável pelo atendimento.

A vacina utilizada no Sistema Único de Saúde (SUS) é a quadrivalente, que oferece proteção contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do HPV.

É importante destacar que a vacinação não funciona como um tratamento para uma eventual infecção contraída durante o episódio de violência. Seu objetivo é oferecer proteção contra tipos do HPV aos quais a criança ainda não tenha sido exposta.

Segundo a presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mônica Levi, a vacinação nesse contexto deve ser entendida como uma estratégia de prevenção para possíveis exposições futuras, e não como uma forma de eliminar uma infecção adquirida imediatamente antes da aplicação.

Vacina contra HPV não substitui o calendário de vacinação

A aplicação feita por causa de um episódio de violência sexual terá uma regra específica.

Quando a vacina for administrada antes dos 9 anos, essa dose não será considerada parte do esquema de vacinação de rotina contra o HPV. Assim, quando a criança atingir a idade prevista para a imunização regular, deverá receber novamente as doses indicadas pelo calendário vigente.

Isso significa que a dose aplicada após a violência sexual não elimina a necessidade da vacinação de rotina.

Por outro lado, crianças que já tenham sido vacinadas contra o HPV não precisam receber automaticamente uma nova dose apenas porque passaram por uma situação de violência sexual. A necessidade de vacinação deverá ser avaliada individualmente pelo serviço de saúde.

Por que vacinar uma criança que pode já ter tido contato com o HPV?

Uma das razões para a recomendação é que existem diversos tipos de HPV. A infecção por uma variedade do vírus não significa necessariamente que a pessoa tenha sido exposta às demais.

A vacina quadrivalente disponibilizada pelo SUS protege contra quatro tipos:

  • HPV 6 e 11: relacionados principalmente ao aparecimento de verrugas anogenitais;
  • HPV 16 e 18: associados a diferentes tipos de câncer.

A infecção persistente pelo HPV pode estar relacionada a cânceres do colo do útero, pênis, vulva, vagina, canal anal e orofaringe.

Dessa forma, mesmo que uma criança tenha adquirido um tipo de HPV durante uma violência sexual, a vacinação ainda pode proporcionar proteção contra outros tipos incluídos no imunizante.

Violência sexual contra crianças aumentou nos últimos anos

A ampliação da recomendação ocorre em um cenário de crescimento das notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes.

De acordo com os dados citados pelo Ministério da Saúde, os registros envolvendo pessoas de 5 a 14 anos passaram de 6.594 casos em 2014 para 29.135 em 2024.

Essa faixa etária representou aproximadamente 66% das notificações de violência sexual analisadas naquele ano.

Os números, entretanto, podem representar apenas parte do problema. A própria documentação do Ministério da Saúde chama atenção para a existência de subnotificação dos casos de violência sexual.

Estimativa mencionada na nota técnica, baseada em estudo do Ipea, aponta para aproximadamente 822 mil estupros por ano no Brasil, enquanto somente uma parcela dessas ocorrências chega aos sistemas oficiais de saúde ou segurança pública.

Por que a idade mínima foi estabelecida em 2 anos?

A decisão de incluir crianças menores de 9 anos levou em consideração, entre outros fatores, a vulnerabilidade desse grupo e o risco de novas exposições à violência sexual.

A vacina já era recomendada desde 2023 para pessoas vítimas de violência sexual entre 9 e 45 anos. A partir da análise do problema envolvendo crianças mais novas, o tema foi levado à Câmara Técnica Assessora em Imunizações do Ministério da Saúde, que apoiou a ampliação da indicação.

Outro aspecto considerado foi a experiência acumulada com o uso do imunizante em crianças com papilomatose respiratória recorrente, uma doença associada ao HPV que pode provocar o surgimento repetido de lesões nas vias respiratórias.

Segurança da vacina contra HPV em crianças pequenas

A quantidade de estudos específicos com crianças menores de 9 anos ainda é mais limitada do que aquela disponível para as faixas etárias tradicionalmente contempladas pela vacinação contra o HPV.

Mesmo assim, o Ministério da Saúde cita pesquisas realizadas na América Latina envolvendo crianças de 4 a 6 anos. Os estudos indicaram uma resposta adequada de produção de anticorpos e um perfil de segurança considerado favorável, com acompanhamento de até três anos.

Até o momento, segundo a nota técnica, não foram identificados sinais que impeçam o uso da vacina nessa faixa etária em situações especiais.

Uma das questões que continuará sendo acompanhada é por quanto tempo a proteção proporcionada por uma única dose permanece em crianças pequenas.

Por essa razão, a vacinação realizada após uma violência sexual não substitui o esquema de rotina indicado posteriormente.

Como será feita a vacinação contra HPV no SUS?

A vacinação poderá ocorrer nas salas de vacinação do SUS, a partir da indicação do serviço ou do profissional responsável pelo atendimento da criança.

O encaminhamento poderá ser realizado por diferentes pontos da rede de saúde, incluindo:

  • hospitais;
  • unidades de atenção primária;
  • serviços especializados no atendimento a vítimas de violência sexual.

A recomendação também prevê o registro da vacinação nos sistemas do Programa Nacional de Imunizações (PNI), além da documentação da indicação, do consentimento do responsável legal quando necessário e do acompanhamento clínico.

Eventuais reações ou eventos adversos também deverão ser registrados e acompanhados pelos serviços de saúde.

Vacinação é apenas uma parte do atendimento à vítima

A ampliação da vacinação contra o HPV não deve ser interpretada como uma medida isolada no atendimento de crianças vítimas de violência sexual.

O cuidado precisa envolver acolhimento, acompanhamento médico e psicológico, notificação do caso, medidas de proteção e prevenção de novas situações de violência, além das demais condutas indicadas pelos profissionais de saúde.

A vacinação tem como objetivo específico reduzir o risco de futuras infecções pelos tipos de HPV presentes na vacina. Ela não trata uma infecção já estabelecida e não substitui as demais medidas de atendimento à vítima.

Perguntas frequentes sobre a vacina contra HPV após violência sexual

Crianças de 2 anos podem tomar a vacina contra HPV?

Sim. A nova recomendação permite que crianças a partir dos 2 anos de idade vítimas de violência sexual recebam a vacina quadrivalente, desde que haja indicação do serviço ou profissional responsável pelo atendimento.

A vacina elimina o HPV adquirido durante a violência?

Não. A vacina não funciona como tratamento para uma infecção já adquirida. Ela pode proteger contra outros tipos de HPV que ainda não tenham infectado a criança.

A dose aplicada antes dos 9 anos substitui a vacinação de rotina?

Não. A dose administrada em decorrência da violência sexual antes dos 9 anos não é contabilizada como vacinação de rotina. A criança deverá seguir o calendário regular quando chegar à idade indicada.

Quem já tomou a vacina precisa receber outra dose após uma violência sexual?

Não necessariamente. Uma nova vacinação não é automática para quem já recebeu o imunizante. A situação deve ser avaliada individualmente pelo profissional de saúde.

A vacina contra HPV protege contra câncer?

A vacinação reduz o risco de infecção pelos tipos de HPV contra os quais oferece proteção e, consequentemente, ajuda a prevenir doenças associadas ao vírus, incluindo alguns tipos de câncer.